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Há 33 anos, Laércio Rodrigues criou a DHP, oficina especializada em direção hidráulica, para ajudar o filho Paulo que estava terminando a faculdade. Desde então, a família enfrenta os obstáculos do dia a dia com muita dedicação e união.

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icone_fotos_p F. Tavares

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Revista O Mecânico: Vocês trabalham juntos há mais de 30 anos, como é essa relação entre trabalho e família?
Laércio: Não é fácil. É difícil, mas graças a Deus eu tenho filhos maravilhosos. Então a gente se entende muito bem. Às vezes, temos algumas desavenças, mas isso fica aqui mesmo entre a gente e acaba se resolvendo.
Paulo: São condições bem diferentes, a responsabilidade é maior, porque é sua família. Você tem que estar pensando que precisa fazer o melhor como um todo. Não é que eu não faria numa empresa, mas há uma cumplicidade diferente. Eu acho que nós somos muito unidos aqui dentro. Embora haja sempre uma discussão por certo motivo, uma discordância ou outra, a gente põe em votação e rapidinho se resolve. Do nosso segmento de direção hidráulica, felizmente ou infelizmente, nós somos dos poucos que estão sobrevivendo. Pois os outros já fecharam e, os que não fecharam, encolheram. Talvez por estarmos em família, pelo prédio ser nosso e por estarmos sempre preocupados em investir no nosso patrimônio, nós chegamos aqui, onde outros não chegaram. Acho que isso ajudou bastante a gente.

Revista O Mecânico: Como está o mercado de direção hidráulica e como é trabalhar nesse ramo para vocês?
Paulo: Esse segmento já foi melhor no passado. Rentável, hoje não é mais. É um segmento muito deturpado, existe muita pirataria e temos muitas dificuldades pelos desmanches. O desmanche aqui em São Paulo/SP ainda predomina. É uma coisa que alguém tem que tomar alguma atitude a esse respeito, pois você vê barbaridades, como veículos que chegam com caixa de aplicação errada. Por exemplo, alguém coloca uma bomba de direção hidráulica de um Gol numa caminhonete, ou ao contrário. Muita adaptação. A pessoa não sabe, mas pode acontecer algum acidente, por algum motivo ou aplicação de produto errado.
Existe um mercado de acessórios de concessionárias que é terceirizado. Então, de uma maneira ou de outra, algumas concessionárias por terceirizar esse segmento de acessório acabam colocando equipamentos de desmanches em veículos que andam por ai. É obvio que o dono ou gerente da concessionária nem está sabendo que isso pode estar acontecendo. Em alguns casos, até a parte de oficina já ficou sabendo. O desmanche tinha que acabar de uma vez por todas. Esse é um lado negativo.
Laércio: Direção hidráulica é item de segurança, como freio e outros equipamentos a mais. Deveria ser feito como era antigamente, que posto de serviço autorizado não podia vender nem reparo. Porque existia a possibilidade do cara, ao montar, criar um problema e causar um acidente.

Revista O Mecânico: Então esse é o lado negativo do mercado?
Paulo: Eu vejo que o segmento está cada vez pior. Não adianta você tomar banho e não lavar a cabeça. Se você vai trocar a bomba do carro, não vai limpar o sistema e não vai limpar o reservatório de óleo? Então, existem alguns procedimentos que têm que ser feitos direito, a cartilha tem que ser realizada. O cliente já chega aqui com a peça que ele pegou no desmanche, com o defeito que ele viu na internet e quer que você execute o serviço e dê garantia, sem pagar nada. É uma briga desleal. Não só o problema que tem com desmanches e oficinas não credenciadas.
Isso realmente está fazendo com que boas oficinas deixem de atuar. Algumas oficinas estão perdendo a vontade de ser oficina e as más oficinas acabam dominando. O que você mais vê na rua são veículos financiados. O cidadão não tem um centavo no bolso para consertar o carro. O mercado está muito esquisito. Muito diferente do que era.

Revista O Mecânico: E qual a parte boa? O que mais te realiza nessa profissão?
Paulo: A parte boa é mexer com aquilo que você gosta. A gente faz parte de um grupo de 100 oficinas, do qual a gente faz parte de um “G10”. São as 10 oficinas escolhidas pelas fábricas, que tem um potencial de compra, que tem um padrão nível A de trabalho, conhecimento também no setor. Quem escolhia isso era a DHB.
O que tem de legal é o que a gente viveu. O inicio da direção hidráulica no Brasil, nós vimos essas direções nascerem no Alfa Romeo, nós participamos do desenvolvimento. Nos Opalas, depois dos Monzas. Saber quais são os kits de cabeça, quais são as bombas, quais são as mangueiras, isso facilita na hora que o carro encosta com defeito. Você já tem o know-how disso aí. Essa é a parte legal e gostosa. É gostar daquilo que a gente sabe ou pensa que sabe fazer.

Revista O Mecânico: Alguma vez você acordou e pensou que gostaria de ter feito outra coisa?
Paulo: Não, nosso segmento sempre foi esse e eu gosto demais do que eu faço aqui, embora a minha formação acadêmica tenha sido outra, eu gosto mesmo é da graxa, da oficina.

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Revista O Mecânico: Quantos funcionários têm na oficina? E como você acha que tem que ser o relacionamento entre os donos da oficina e os funcionários?
Paulo: Nós estamos em seis. O relacionamento tem que ser da melhor maneira possível. Eu acho que a maior parte da sua vida você convive com as pessoas que estão no seu ambiente de trabalho. Então, se for diferente disso, fica impraticável. Nosso relacionamento com eles é da melhor maneira possível. Pelo menos da nossa parte e acho que da parte deles também.

Revista O Mecânico: E como vocês avaliam a mão de obra nesse ramo atualmente?
Paulo: Do nosso segmento específico de direção hidráulica existem cursos de reciclagem a cada ano nas fábricas. Então, toda vez que sai um equipamento novo no mercado, eu tenho a exigência de comprar um kit novo de ferramenta para aquele mecanismo de direção, aí entra a segurança que eu falo de mexer em um carro que eu tenho as ferramentas adequadas para o sistema desse veículo e o treinamento do meu profissional, do meu laboratório. Acompanho o fabricante, não importa que a fábrica seja em Porto Alegre, Curitiba: faço questão de estar em todos os cursos com meu chefe de laboratório. Todos os cursos que acontecem, eu vou. Eu desmonto o mecanismo e eu monto o mecanismo de direção. Não adianta você simplesmente mandar, você tem que saber como fazer, pra poder ver se está coerente ou se tem alguma coisa errada. Então eu faço questão de ir sempre que há um curso de aperfeiçoamento. Estou junto com eles.

Revista O Mecânico: Qual a perspectiva para o futuro para a área de direção hidráulica?
Paulo: Hoje está um pouco nebulosa. O mercado da linha de direção hidráulica tende a sumir. Pelo menos é o que a gente está enxergando. Não tão rápido como foi a mudança de carburação para a injeção eletrônica, mas ele tende a sumir. A direção totalmente elétrica deve vir com o passar de alguns anos.

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Oficina enfrenta a concorrência desleal dos desmanches para sobreviver

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