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Conheça o procedimento de pré-inspeção veicular que pode ser feito na oficina e quais os cuidados o reparador deve tomar para que o veículo não seja reprovado na inspeção oficial

Fernando Lalli

 

Instituída por lei, a Inspeção Veicular Ambiental é hoje uma realidade na cidade de São Paulo/SP. Em 2008, passou a ser obrigatória para todos os veículos diesel e, no ano seguinte, foi estendida para modelos leves fabricados a partir de 2003. Desde 2010, no entanto, cobre 100% da frota de veículos circulantes, ou seja, caminhões, ônibus, carros e motos. O procedimento ainda não é aplicado em todo o Brasil, mas isso é apenas uma questão de tempo. Há projetos de lei, tanto na esfera Federal quanto em diversos estados, para que a inspeção tenha abrangência nacional, e isso pode acontecer mais rápido do que se imagina.

 

Por isso, o profissional da reparação que ainda não está familiarizado com o tema deve ficar atento e começar a investir tanto em conhecimento quanto em equipamentos para não ser surpreendido pela futura demanda e perder negócios. “A obrigatoriedade da inspeção ambiental para o licenciamento dos veículos é, sem dúvida, uma alavanca para a realização de muitos serviços na oficina mecânica, pois os veículos passaram a depender de uma manutenção mais frequente”, afirma Raffaele Ventieri Neto, supervisor de Pós-Vendas da Alfatest

 

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Entre os procedimentos de manutenção mais comuns que visam a inspeção ambiental, Raffaele lista a troca de óleo; troca de filtros de ar, óleo e combustível; diagnóstico da injeção eletrônica com scanner; limpeza dos injetores e do corpo de borboleta; revisão do sistema de ignição (velas, cabos e distribuidor quando houver); diagnóstico apurado da sonda lambda e verificação completa do sistema de escapamento, principalmente se o veículo possuir sonda lambda pós catalisador.

 

Como complemento das operações de manutenção preventiva, podem ser oferecidos outros serviços: limpeza e calibração do carburador de acordo com os parâmetros do fabricante; regulagem das válvulas do motor; verificação de entradas falsas de ar não medido no sistema de admissão; medição da pressão de alimentação de combustível; verificação da estanqueidade dos injetores e verificação da temperatura de funcionamento do motor. E, por fim, caso o mecânico possua o equipamento adequado em sua oficina, também pode ser oferecida a própria pré-inspeção veicular.

 

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Dois tipos de equipamentos são utilizados na inspeção ambiental: o analisador de gases para motores de ciclo Otto (gasolina, álcool, GNV e flex) e o opacímetro em propulsores diesel. Nesta reportagem, fizemos a demonstração de uma pré-inspeção num veículo Peugeot 408 ano 2011, para isso adotamos um analisador de gases do tipo infravermelho, semelhante ao utilizado pela empresa Controlar na inspeção obrigatória feita em São Paulo. Vale lembrar que todo equipamento de análise de gases deve ser homologado e aferido de forma periódica pelo Inmetro, “Caso contrário, a sua oficina pode ser multada, e os valores podem ser altíssimos”, alerta Raffaele.

 

Pré-inspeção visual

 

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De acordo com Raffaele, o segredo para um veículo ser aprovado é realizar a manutenção correta, conforme o manual do carro, considerando não só as emissões, mas também o reparo de possíveis vazamentos de óleo, água e fluidos, assim como furos no escapamento e possível desligamento ou anulação do cânister. Ou seja: todos os dispositivos de controle de emissão originais do veículo. Isso porque, antes da análise dos gases, a legislação brasileira pede uma pré-inspeção visual dos componentes, que é dividida em duas partes.

 

A primeira parte da inspeção visual procura constatar se o veículo está apto a passar pelo analisador de gases. A etapa verifica se há a ausência de partes originais como bocal do filtro de ar e catalisador, emendas em tubulações de ar na admissão, emissão de fumaça visível, marcha lenta muito irregular, entre outros passíveis defeitos listados pelo próprio equipamento de análise. “Só nesta fase, há uma série de serviços que devem ser ofertados ao dono do veículo ainda na oficina, não basta só regular o carburador ou só o teste de injeção eletrônica”, atenta Raffaele. Caso algum problema seja identificado, o veículo é rejeitado e sequer passa pelo teste de emissões.

 

Em seguida, a inspeção visual continua pelo exame superficial dos itens de controle de emissão de gases e ruído, e dos dispositivos de informação sobre o funcionamento do motor. A diferença deste passo é que, mesmo se houver um resultado negativo, o veículo será encaminhado para o exame de gases.

 

Análise de emissões

 

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Os itens considerados pelo analisador de gases são os valores corrigidos de HC (hidrocarbonetos) e CO (monóxido de carbono) que são poluentes, e o fator diluição, que verifica se há alguma entrada de ar falsa pelo sistema de escapamento. Os limites na inspeção são determinados de acordo com o ano de fabricação e do tipo de combustível do veículo. Raffaele explica que os limites instituídos pela lei respeitam a tecnologia empregada em cada veículo, ou seja, um carro originalmente carburado e sem catalisador possui limites bem mais tolerantes do que um mais moderno, com injeção e sistema de exaustão mais aprimorado (veja boxes).

 

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Para fazer a análise correta de emissão de poluentes, o veículo deve ser mantido ligado até atingir a temperatura ideal, indicada no aparelho. A instalação do sensor é guiada de forma bem simples pelo próprio programa do analisador de gases, para que o reparador não tenha dúvidas.

 

Após a instalação da sonda, o programa parte para o processo de descontaminação do óleo do cárter, no qual o motor deve ser acelerado a 2500 rpm durante 30s. Nesta fase, fique atento ao óleo, pois se estiver vencido pode estar contaminado com HC e prejudicar o resultado final do teste. Na sequência, é efetuada a medição dos gases, com o veículo acelerado a 2500 rpm por até 150s. A etapa final consiste em deixar o motor em marcha lenta por 30s e, caso não seja aprovado, passa por mais um período de 30s com medições constantes.

 

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Raffaele esclarece que veículos equipados com injeção eletrônica, como o Peugeot 408, não permitem ajustes nos valores de emissão. Por isso, o reparador deve ficar atento ao pleno funcionamento da sonda lambda, que é vital para uma aprovação na inspeção ambiental. “A atenção deve ser redobrada nos modelos que possuem duas sondas: a segunda, localizada após o catalisador, monitora justamente a eficiência do conversor catalítico”, alerta.

 

Com o nível de emissões dentro dos valores permitidos e sem problemas visuais de avarias, o veículo pode ser liberado para a inspeção oficial.

 

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E se o veículo for reprovado no teste oficial?

 

Mesmo com todos os cuidados tomados durante a pré-inspeção na oficina, pode acontecer de o carro ser reprovado no Centro de Inspeção. Por isso, o técnico recomenda não liberar o carro com valores de medição próximos dos limites permitidos. “Procure trabalhar sempre com uma margem de segurança”, aconselha.

 

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O reparador deve sempre orientar o dono do veículo a não cometer erros que possam influenciar no resultado da inspeção, como utilizar combustível de má qualidade ou manter o carro frio antes da inspeção. “Às vezes, o proprietário mora perto do local de inspeção e não aquece o motor suficientemente”, alerta.

 

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Entretanto, o especialista também avisa que a falta de manutenção do analisador de gases da oficina tem grande peso no resultado final do cliente. Segundo ele, o Inmetro recomenda que o aparelho seja calibrado e aferido a cada 6 meses, mas nem sempre o tempo de uso é o que determina a necessidade de manutenção, já que os filtros podem ficar saturados antes desse período, dependendo do volume de serviço e do tipo de veículos que forem analisados.

 

“Imagine, por exemplo, fazer a inspeção em 10 veículos antigos e em 10 modelos recém-fabricados. É o mesmo número de análises, mas o nível de contaminação é bem diferente”, atenta. Ele ainda explica que o HC é o resíduo de escape que mais prejudica os filtros e, pela tabela de aprovação da própria Controlar, um carro fabricado até 1979 pode emitir até sete vezes mais HC do que um modelo 2011.

 

Para manter o analisador de gases funcionando bem no dia a dia, Raffaele orienta que o reparador fique atento ao prazo de troca dos filtros e faça a purga da mangueira da sonda com ar comprimido. “A purga é especialmente importante porque não só limpa a mangueira, mas evita que o líquido e o gás residual contidos nela passem pelo circuito do equipamento, automaticamente aumentando a vida útil dos filtros e do próprio aparelho. Isso também diminui o tempo de espera entre um teste e o outro, já que, com a purga, o residual cai rapidamente. Se não houver a purga, o aparelho ficará ligado tentando eliminar o residual sozinho e demorará bem mais até o próximo teste”, detalha.

 

A Inspeção Ambiental Obrigatória cobra atenção do reparador aos detalhes que muitas vezes são ignorados e exige investimentos em equipamentos que até então não eram necessários. Entretanto, é uma oportunidade fazer a sua oficina ganhar em relação a qualidade, produtividade e faturamento, com o aumento da demanda pela manutenção, tanto preventiva quanto corretiva, visando a aprovação. Lembre-se que a conscientização pela redução de emissões de poluentes é prioridade dos governos e do setor, ou seja, a Inspeção está longe de ser um modismo, mas, sim, veio pra ficar.

 

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Mais informações: Alfatest – PABX (11) 2065-4700