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Certos modelos são dor de cabeça na certa quando entram na oficina, mas o mecânico tem que estar preparado para encarar o serviço

Parece brincadeira, mas é verdade. Existem determinados modelos que alguns mecânicos têm verdadeiro pavor de ver entrando porta adentro da oficina. E muito se engana quem pensa que isso é recente. Longe disso. Quem tem mais de 40 anos (de oficina) chegou a conhecer: “O Belo Antônio”. Não, não se trata de um personagem de Marcello Mastroianni em um filme dos anos 60 (era bonito, mas impotente e problemático). É o apelido de um carro da época. Estamos falando do Simca Chambord. Impotente para o proprietário, por que o “dito cujo” se arrastava pelas ruas, devido a baixa potência do seu motor (um V-8 de 2.500 cilindradas). E problemático para o mecânico, pois era equipado com uma ignição de 2 platinados difícil de sincronizar sem os manuais (trancados a sete chaves pelas concessionárias) e equipamentos sofisticados e muito caros para a época. Isso sem falar de problemas crônicos de refrigeração, que só foram resolvidos anos mais tarde, quando a empresa foi absorvida pela Chrysler. Quando um Simca entrava na oficina era comum o mecânico levar as mãos a cabeça. Era reclamação e retrabalho na certa.

Com o passar dos anos, outros modelos também receberam estigmas. Uns justos. Outros nem tanto.

Por exemplo. Quem já não amaldiçoou um Fiat Marea 20V? Muita gente com certeza. Mas será que ele realmente merece a má fama? Existe realmente uma falha de projeto no motor? Ou será que o problema está em outro lugar? Trata-se de um motor de alta tecnologia, que exige troca periódica de lubrificante (especial e em grande quantidade) e da correia dentada (que requer um procedimento trabalhoso de mão de obra treinada, ferramental especializado e substituição de peças caras).

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O problema é que quem compra esses carros usados nem sempre tem condições de pagar pelas peças que o carro exige e/ ou pela mão de obra que mecânico merece para mantê-lo. Afinal de contas, treinamento, manuais, ferramentas e tempo não são de graça. E para “pegar” o serviço ao preço que o cliente está disposto a pagar, muitos profissionais acabam tentando executar os reparos sem os recursos necessários, apelando para procedimentos paralelos que podem ou não dar totalmente certo. Daí o resto é história.

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Isso sem falar naqueles que desmontam pela primeira vez um sistema complicado, como uma distribuição de comando variável, sem nunca ao menos ter lido uma linha sequer sobre o mesmo. É brincar de roleta russa com uma arma cujo tambor está faltando apenas uma bala.

E os “memes” da internet a respeito de uma certa marca francesa? Sem dúvida que eles são engraçados. Mas, por outro lado, refletem uma realidade preocupante: profissionais que, às vezes, pegam um serviço sem ter condições técnicas de fazê-lo. Sobretudo a fase mais importante: o diagnóstico.

Fazer funcionar é uma coisa; fazer funcionar direito é outra. Existe uma distância astronômica entre essas duas situações. E a ponte que as une é a preparação técnica (conhecimento + ferramental + treinamento), que requer investimento. Investimento esse que precisa não só ser recuperado como gerar lucro. Logo, é preciso cobrar o preço justo. Se o cliente interessa para a empresa (aquele antigo e que indica a oficina para outras pessoas), mas naquele momento não pode pagar, buscam-se ferramentas financeiras para ajudá-lo. Mas nada de abaixar o preço em troca de procedimentos não garantidos.

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Não sabe fazer ou não tem segurança suficiente para fazer? Isso não é vergonha! Ninguém é obrigado a saber ou ter experiência em tudo. Indique um colega de confiança que conheça o serviço. Estude, se aprimore, adquira a confiança necessária e, na próxima vez, faça você.

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Mas e a falta de peças? Alguns modelos são conhecidos por esse flagelo. Sim, isso é verdade, mas não é motivo para estigmatizar o carro. Pois não se trata de um problema técnico mas sim logístico. Se o mercado do dia a dia não tem é preciso ter a mão um plano “B”, um plano “C” e quem sabe um plano “D”. Mas esses planos têm que ser traçados antes. Não na hora que o veículo entra na oficina.

Esse é o ônus do trabalho dentro do universo das multimarcas: constante atualização e investimento (mesmo que seja de forma coletiva, com as ferramentas compradas em grupo) e uma logística impecável (o Guerreiro das Oficinas não é refém de nenhum fornecedor de peças).

Mas, então, o que fazer? Dispensar as “bombas” e deixar lugar para os “filés”?

Tendo em vista que pandemia rareou o mercado, não é hora de dispensar clientes. Em primeiro lugar é preciso definir o que é uma bomba. É um carro que tem problemas de projeto e o cliente não sabe? É um carro que está em muito mau estado e vai requerer muito trabalho e dinheiro para o reparo? É um carro que o mecânico não conhece a fundo e não tem segurança para reparar? É a franqueza junto ao cliente é a ferramenta que vai transformar os limões em limonada.

Tecnicamente, todo carro tem conserto. A questão é saber se o cliente está disposto a pagar o valor necessário para tal. Mas medo de carro, isso o Guerreiro das Oficinas não pode ter.

Por Fernando Landulfo