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Situação econômica do Brasil se reflete na queda do valor médio dos serviços e oficinas independentes lutam para vender qualidade a seus clientes

 

Texto: Fernando Lalli
Fotos: Fernando Lalli / arquivo

 

Para quem viveu no Brasil dos anos 1980 até o início dos anos 1990, falar em crise não é novidade. Quem tem 35 anos ou mais viveu sua juventude na transição entre a ditadura militar e a democracia. Aqueles eram dias de economia turbulenta, inflação astronômica e dinheiro que de uma hora para outra mudava de valor e até de nome: lembra do cruzeiro que virou cruzeiro novo, depois virou cruzado, depois cruzado novo…? Pois é. A crise política e econômica de 2015 fez muita gente lembrar desses lamentáveis momentos que ninguém gostaria viver de novo.

 

Por mais que alguns defeitos ainda persistam, o cenário do País, hoje, felizmente, é diferente daquela época. Assim, certos dados devem ser analisados com cuidado. Em nosso setor, existe a crise das montadoras de automóveis, com queda brusca de mais de 20% na venda de veículos novos em 2015 se comparado ao ano passado. Ao mesmo tempo, fabricantes de autopeças com foco na reposição declaram que estão mantendo o nível de vendas, ou mesmo crescendo, na contramão do pessimismo generalizado. Mas o quanto desse bom ritmo da reposição está realmente se refletindo nas oficinas mecânicas independentes?

 

Dados do Sindirepa-SP (Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios do Estado de São Paulo) revelam que, estatisticamente, o ano foi positivo quanto ao número de serviços executados pelas oficinas. Entre janeiro e setembro de 2015, o crescimento foi de 11,9% em comparação ao mesmo período do ano anterior. “Isso tem influência da queda nas vendas de veículos novos e aquecimento do mercado de seminovos”, afirma Antonio Fiola, presidente dos Sindirepas paulista e Nacional.

 

Mas, ao mesmo tempo em que o número de serviços aumentou, o valor médio do reparo feito pelo cliente diminuiu. “O consumidor se mostrou mais contido com relação a gastos em manutenção”, explica Fiola. Este, sim, é um reflexo direto da crise. Apesar de o consumidor ter preferido consertar seu carro antigo do que comprar um carro novo, ele está fazendo apenas os reparos mais básicos em seu veículo. Resumindo: enquanto o carro não quebra, o consumidor não manda trocar nada. E este é o principal problema que as oficinas mecânicas independentes estão enfrentando.

 

Queda no faturamento

Thiago José da Silva, mecânico e sócio proprietário da oficina JOAL Escap em Campinas/SP, relata que houve, sim, queda no volume de clientes e serviços em sua oficina. “Caiu um pouco o movimento e, de forma bastante destacada, caiu o ticket médio por venda. A manutenção preventiva está ficando em segundo plano. O cliente está consumindo só o básico essencial”, conta Thiago.

 

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Thiago José da Silva, da JOAL Escap: “mais cedo ou mais tarde, o cliente vai fazer a manutenção que ele retardou”

 

Em São Caetano do Sul/SP, Djair Agonilha, mecânico na oficina Fiauto, afirma que o movimento diminuiu não só na sua oficina como também entre os seus concorrentes. “Este ano aqui foi fraco, principalmente nos últimos três meses. Até mesmo para os outros colegas e o pessoal de autopeças, todos estão reclamando”, lamenta Djair. Ele diz que clientes de grande porte da oficina chegam a comprar peças no mercado paralelo para reduzir o custo final do reparo. “Eu me preocupo muito com qualidade e… ‘Tá’ complicado”, suspira. “A gente deixa claro para o cliente que traz a peça que a garantia é dele, mas a situação está assim”.

 

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Djair Agonilha, da Fiauto: “este ano foi fraco principalmente  nos últimos três meses. Outros colegas também estão reclamando”

 

Ex-professor do SENAI, Djair afirma que o agendamento dos serviços na oficina, por vezes, nem é mais necessário devido à queda do ritmo de trabalho. Além disso, seus clientes o procuram para fazer só a manutenção necessária – ou nem isso, como conta o mecânico: “um cliente conhecido nosso só trouxe o carro para mexer no freio quando a placa da pastilha pegou no disco. E mesmo assim ele ainda rodou com o carro durante uns dois dias”.

 

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Oficinas estão cheias, mas clientes buscam principalmente serviços rápidos e essenciais

 

Barganha em detrimento da qualidade

Mesmo oficinas cujo movimento é fomentado por clientes passantes estão com dificuldades em manter o nível de faturamento. O mecânico José Jarbas Ferreira, da Auto Mecatrônica Pompéia em São Paulo/SP, conta que a maioria dos fregueses já traz a peça consigo porque privilegia o preço. “Eu explico para o cliente: se você quiser comprar uma peça recondicionada, eu coloco, só que eu não me responsabilizo por nada. Agora, se eu comprar a peça, eu vou comprar um produto de primeira”, afirmou José.

 

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José Jarbas ferreira, da Auto Mecatrônica Pompéia: “não podemos deixar a qualidade do serviço cair”

 

O alto giro de veículos que a oficina paulistana atende em finais de semana não significa faturamento maior. “Chega de tudo. Freio, arrefecimento, motor de partida, alternador, lâmpadas, faróis, tudo mesmo. Mas a conversa de todos eles é a mesma: ‘eu preciso do carro’, ‘não posso parar’, ‘não tenho dinheiro’. Ficam barganhando, mesmo. Pessoal não está se incomodando com qualidade, é verdade”, lastima José. “Mas nós não podemos deixar a qualidade do serviço cair”.

 

O diálogo com o cliente parece estar cada vez mais difícil. O consumidor final tende cada vez mais a confundir manutenção preventiva com “empurroterapia”, seja por desconfiança ou desinformação. “Se você tenta vender a manutenção preventiva, insistindo, mas de forma justa, o cliente pode ficar até ofendido e acaba mesmo saindo da oficina”, declarou Thiago da JOAL Escap. Ele explica que, para contornar a situação, a oficina de Campinas iniciou a estratégia de apresentar aos clientes dois orçamentos diferentes: um com os reparos corretivos necessários no veículo e outro incluindo os reparos preventivos. “Mostramos quais peças ele vai precisar trocar futuramente. Explicamos a situação e o cliente escolhe qual dos dois orçamentos vai fazer. Deixamos o cliente bem à vontade para decidir e, assim, não ficamos sem o serviço”, releva o mecânico.

 

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Antônio Geraldo Pereira da Silva, da oficina Câmbio Automático: “você tem que levantar sua porta e correr atrás”

 

Saindo da zona de conforto

O mecânico acha conserto para tudo, mas a situação econômica das oficinas independentes tem conserto? Sérgio Ricardo Fabiano, gerente de Serviços do IQA (Instituto da Qualidade Automotiva), opina que mecânicos e proprietários devem fazer ações de fidelização a fim de estimular a clientela a frequentar o estabelecimento. “Em tempos de crise, as oficinas têm que diversificar, atender a outras atividades e ampliar os seus serviços”, propõe Sérgio. “É lógico que o cliente vai gastar menos e fazer só o necessário, mas a oficina tem que ter um contato maior com o cliente, ter um controle da manutenção preventiva do carro dele e oferecer seus serviços, oferecer peças em promoção”, enumera.

 

Ainda que a crise venha a permanecer por bastante tempo, Thiago da JOAL Escap acredita que a situação das oficinas vai melhorar a curto ou médio prazo, e confirma que já vê sinal de melhora no fim do túnel. “Mais cedo ou mais tarde, o cliente vai ter que a fazer a manutenção que ele retardou. Aliás, isso já está acontecendo”, declara o mecânico, dizendo o caso de um veículo que voltou à oficina para reparar corretivamente os itens que antes estavam no orçamento preventivo. “Se o cliente protelar demais, aí já está pondo em risco a sua segurança”, alerta.

 

Há muitos fatores que podem vir a favor dos mecânicos em 2016. Para começar, o mercado de reposição independente é responsável pela manutenção de 80% da frota brasileira de veículos, que é estimada em mais de 41 milhões de automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus. Percebendo a curva de vendas de veículos entre os anos de 2010 e 2013, a quantidade de carros que chegará em breve às oficinas independentes é imensa. Tudo isso irá movimentar o mercado, queira a crise ou não. “Estudo da Roland Berger prevê crescimento do setor da ordem de 4,8% nos próximos anos, justamente por causa da frota em circulação que demanda serviço nas oficinas”, explica o presidente do Sindirepa, Antônio Fiola. “O reparador precisa estar preparado para a atender a demanda diversificada”.

 

Quem faz coro a Fiola é o mecânico Antônio Geraldo Pereira dos Santos, que hoje trabalha na oficina Câmbio Automático Auto Mecânica em São Paulo/SP. Para ele, a receita para vencer a crise é esquecer o noticiário e focar no trabalho. “Você tem que levantar sua porta e correr atrás. Eu mexo com mecânica, eu tenho que estar atualizado. Se chegar um carro novo aqui, eu tenho que estar pronto para atender o cliente. Se eu não conheço esse carro, eu estou mal informado, então não vou conseguir sair do lugar mesmo”, sorri. Antônio, que já mexeu com todo tipo de veículo, desde máquina agrícola na fazenda até carro importado, sabe das coisas. “Quem vem desinformado, não ganha dinheiro. Primeiro, tem que preparar o terreno para depois plantar. Senão, não cresce nada, não é mesmo? Não dá para ficar parado”, finaliza o mecânico, do alto de seus 40 anos de profissão e ciente que ainda tem muita estrada pela frente.