artigo por Diego Riquero Tournier
fotos Arquivo Bosch / Arquivo O Mecânico
Eu sempre falo que o passado, geralmente nos entrega algumas evidencias sobre um futuro provável.
Esta condição, é válida sempre que seja possível analisar um contexto, para o qual tenhamos informações sobre algumas das principais variáveis que afetam ao mesmo.
Dentro desta proposta, vamos trabalhar um cenário futuro para as oficinas automotivas, o qual está se apresentando como muito provável, principalmente falando do tipo de oferta de serviços que uma oficina automotiva poderá praticar, em um futuro próximo (3 a 5 anos), como fator de diferenciação e de agregação de valor para um novo mercado em formação.
E este futuro próximo, passa pela migração da atual oferta de serviços generalistas multimarca, para um verdadeiro ressurgimento das oficinas especialistas.
Como muitos de vocês já devem ter percebido, o ser humano que convive dentro de um contexto socioeconômico (vida em sociedade), costuma a repetir ciclos os quais se desenvolvem e se repetem, dentro de um determinado período de tempo; para o caso do nosso cenário de serviços automotivos, esta premissa também podemos considera-la como válida, dadas as evidencias que a história do setor automotivo já nos ofereceu, nos últimos 150 anos de existência.
Podemos afirmar que, 3 grandes fatores sempre foram os motores do surgimento de um novo ciclo, ou analisando desde outra perspectiva, algum desses 3 fatores, foi o responsável por determinar o declínio de um ciclo já consolidado.
E os mencionados fatores são:
- a) A chegada de novas tecnologias.
- b) Cenários político / econômicos (exemplo; crise do petróleo dos anos 70, ou as atuais pressões ambientais).
- c) Mudança nos hábitos de consumo (na medida que a sociedade se transforma, os consumidores alteram de forma significativa seus elementos de percepção de valor).
Bom, esta alternância de ciclos que vêm marcando o nosso negócio “desde sempre”, responde basicamente ás mesmas 5 fases do desenvolvimento de um produto ou serviço.
Sendo estas: O desenvolvimento, Introdução, Crescimento, Maturidade e Declínio.
Claro que, a diferença de um produto, no qual, grande parte das definições estão sendo tomadas por seus criadores, no ambiente social, que determina o comportamento do mercado, existem diversos fatores os quais estão totalmente fora do controle de um empresário, mas, não por conta disso, devemos deixar de analisá-los, para tomar futuras decisões.
Desta forma, não poderíamos deixar de avaliar, o contexto histórico (de onde viemos), para avaliar o mais provável cenário futuro das oficinas automotivas (para onde vamos).
Para este fim, vamos analisar o nosso cenário automotivo local, revisitando algumas décadas passadas, e as principais caraterísticas que definiram as mesmas.
Nesta análise, não vamos entrar em comparações do tipo: as oficinas dos anos 80 e 90 eram desorganizadas, tinham calendários com mulheres com pouca roupa pendurados na parede, não tinham scanners (os quais certamente nem existiam), ou coisas do gênero.
Isso seria realmente simplório, e totalmente irrelevante; na hora de analisar um processo histórico, além de ser totalmente deselegante, o fato de comparar períodos históricos em contextos completamente diferentes, não ajudam em nada na criação de novos cenários possíveis.
O que realmente nos interessa analisar, são os fenômenos que determinavam que um setor do comercio, se organizasse de determinada forma, e para nosso caso em particular, vamos avaliar, a forma com a qual as oficinas automotivas dos anos 80 e 90, se organizavam como estruturas de negócios.
Neste sentido, e como vemos na Figura 1, as estruturas organizacionais que determinavam os tipos de serviços oferecidos pelas oficinas mecânicas da década dos 80 e 90, estavam fortemente marcadas por uma alta diversificação de ofertas de serviços em formatos de especialização.
Basicamente, um cliente que precisava realizar um serviço de elétrica, levava seu veiculo para uma Auto elétrica; e se esse mesmo cliente tivesse um problema de marcha lenta no motor, teria que sair da Auto elétrica e levar seu veículo para uma oficina de regulagem de motores, onde basicamente trabalhavam com carburadores e distribuidores; nada errado com isso, na época funcionava muito bem, e “todo mundo” feliz com esse modelo.
Da mesma forma, existiam oficinas especializadas em sistemas de freio, embreagem, molas, alinhamento, radiadores, e outras tantas especialidades.
Existiam também, oficinas que se intitulavam como de “Mecânica geral”, nelas era possível fazer um cabeçote, desmontar suspensões e outras tantas atividades mecânicas; mas, muitos dos serviços especializados como: elétrica, carburadores, reparo de embreagem, alinhamento de direção, balanceamento de eixo cardam, entre outros, eram terceirizados ou encaminhados para as oficinas especialistas.
É claro que o cenário automotivo também era diferente, tínhamos muito menos marcas e modelos de veículos, as tecnologias evoluíam, mas, não mudavam a uma velocidade tão vertiginosa.
Neste mesmo cenário, o comportamento e expectativas do cliente também eram diferentes se comparas com a atualidade…, durante essas duas décadas, poderíamos resumir a expectativa de um cliente com relação a uma oficina mecânica, da seguinte forma: “Resolve meu problema pontual”.
Problema que para o caso pontual, poderia ser um motor com marcha lenta irregular, um alternador que não carrega, etc.
Mas, como já tínhamos antecipado, o nosso segmento passa por ciclos, e a partir do período 1994/1995, uma mudança paulatina e constante, começo a se gestar dentro do cenário das oficinas automotivas da época. Figura 2
A segunda metade dos anos 90, foi marcada por um prédio de transição, no qual algumas oficinas principalmente localizadas em grandes centros urbanos, começaram a desenvolver uma mudança estrutural.
E esta mudança tinha como foco, uma latente necessidade de ampliar a oferta de serviços, junto com a introdução de uma nova forma de olhar para o cliente.
É verdade que nesta época, novas tecnologias como a Injeção eletrônica e novas marcas de veículos importados ingressaram ao pais; este fenômeno desencadeou uma corrida tecnológica nas oficinas, as quais passaram a adquirir novos equipamentos e se preparar tecnicamente com relação a estas tecnologias entrantes.
Mas, ao contrário do que muitos pensam, a mudança da segunda metade dos anos 90, não foi apenas impulsionada pela chegada das novas tecnologias (injeção eletrônica ou sistemas Diesel eletrônicos), o fator que definitivamente mudou o cenário das oficinas, era outro…
E este fator estava totalmente fora do controle do negócio automotivo; a mudança foi diretamente provocada, por um novo comportamento do consumidor.
Devemos lembrar que nesses anos, a sociedade estava enfrentando mudanças drásticas, no sentido comportamental, e dos hábitos que marcavam o dia a dia de uma pessoa que convivia em sociedade.
Foi no final dos anos 90, que o mundo vivenciou a expansão dos serviços de internet, o boom dos softwares e as soluções digitais, fator que acabou redesenhando por completo o novo mercado de trabalho.
E não podemos deixar de incluir nesta mudança, o crescimento da participação feminina no ambiente empresarial, o qual passou de 30% em 1980 para 41% em 1995, e continua subindo de forma ininterrupta, ate os dias atuais, onde este valor supera o 52%.
As mudanças da vida em sociedade foram tão profundas, que iniciaram um processo de conscientização do fator tempo, como uma importante variável a ser considerada pelas pessoas, nas suas definições cotidianas, assim como, em todas as instâncias que definem uma relação de consumo.
Desta forma, a maioria das pessoas exercendo o seu papel social de consumidor, passou a compreender o tempo, como um elemento fundamental de percepção de valor.
Com base nestas premissas, nasce o conceito de serviços de conveniência…, lembram da publicidade do Posto Ipiranga…?
Bom, trata-se exatamente desse conceito “você resolve tudo no mesmo lugar”, e as oficinas automotivas, em maior ou menor medida, tiveram que se adaptar a essa nova realidade do consumidor.
A era dos Auto Centros de Serviço:
Neste cenário, já não bastava atender a premissa dos anos 80 e começo dos 90, “Resolve o meu problema pontual”; agora a expectativa passou a ser outra:
“Resolve todos os temas relacionados à manutenção do meu veículo”
Desta forma, um novo modelo de oficina “foi importado de outros países”, e passou a ser colocado em prática.
Trata-se do modelo de Auto Centros de serviço, o qual se desenvolveu rapidamente com inciativas individuais de empresários do setor, assim como, com a participação ativa de diversas empresas do setor (fabricantes de Autopeças e Distribuidores), as quais desenvolveram seus próprios conceitos de redes de oficinas, para não ficar de fora do impulso que prometia esta nova tendência.
Claro que não quer dizer que, não existam outros tipos de oficinas especializadas em marcas de veículos, sistemas específicos (Câmbios automáticos, Sistemas Diesel, Retificas, etc.), mas claramente, foram as oficinas multimarcas e multisserviços (associadas ou não a uma rede de oficinas), as que passaram a dominar o mercado em termos de oferta e participação.
Claramente a adaptação que se iniciou no final da década dos 90 e início dos anos 2000, foi muito bem sucedida em termos da aceitação por parte do consumidor; de fato, era algo que o cliente estava aguardando como expectativa de entrega de valor; ou seja, a maior quantidade de soluções possíveis no mesmo lugar.
De fato, podemos afirmar que o conceito de Auto Centros de Serviço, continua sendo o modelo predominante até os dias de hoje,
Mas qual seria então, esse novo fator que atualmente estaria levando o mercado de serviços automotivos, na direção de uma necessidade de mudança…?
Como falamos ao começo, as estruturas socioeconômicas seguem uma organização pautada pelas caraterísticas de um período, e todos os elementos e evidencias que temos ao redor do cenário de serviços automotivos, nos indicam que estamos diante de um período de transição, na direção do início de um novo ciclo; o qual poderíamos chamar como: “o ciclo dos especialistas”; ou por que não…, “o retorno dos especialistas”.
Mas, quais são os fatores que impulsionam esta mudança…?
Porque no ciclo anterior vimos que o principal fator de mudança foi o cliente; “mudança da hábitos do consumidor”, e agora qual seria esse fator?
Bom, atualmente (falando dos últimos 10 anos), quem marca as pautas e dita as regras do futuro de uma oficina automotiva, é a tecnologia.
Em poucas palavras; o sucesso de uma oficina depende da sua capacidade para desenvolver e oferecer soluções, para as novas tecnologias presentes no mercado.
Por mais que nossa atividade sempre manteve uma relação de dependência com as tecnologias criadas e lançadas pela indústria automotiva, atualmente existem fatores que tornaram esta dependência, cada vez mais difícil de ser sustentada, desde o ponto de vista operacional e econômico.
Desde a perspectiva operacional, podemos dizer que, a diversidade das tecnologias e variabilidade de modelos de veículos presentes no mercado, tornaram a tarefa de uma oficina multimarca e multisserviços, praticamente um impossível.
Somado a este fator, o nosso mercado está vivenciando um verdadeiro apagão de técnicos qualificados para trabalhar com estas tecnologias, agravando ainda mais este cenário.
Por outro lado, a mudança tecnológica que estamos enfrentando, é diferente de tudo o que tínhamos vivenciado até o momento; porque mudanças tecnológicas sempre formaram parte dos desafios das oficinas, mas, o que estamos enfrentando atualmente, são mudanças muito rápidas, muito diversas (em tecnologias, sistemas e conceitos de mobilidade), e com necessidades de investimentos sem precedentes.
Estamos falando de equipamentos, licencias de software, informações técnicas, ferramental especial, multiplicado pela quantidade de marcas, modelos, e sistemas; com a agravante de que, todos esses investimentos ficam obsoletos de forma muito rápida, inviabilizando a obtenção de um retorno minimamente adequado, dentro desse cenário de pulverização de marcas, modelos e tecnologias.
Resumindo; se um empresário decidir comprar tudo o que for tecnicamente necessário, para realizar serviços multimarca no formato de centro de serviços (ampla oferta de serviços para todas as marcas e modelos), não contará com as condições de mercado necessárias, para obter um retorno dos investimentos.
Mas, toda mudança traz desafios e oportunidades…, então a proposta é focar nas oportunidades.
Este novo modelo, para o qual nosso segmento está transitando, nos oferece a possibilidade de voltar a ser um especialista em diferentes nichos de negócios.
Ou seja, ser muito muito bom…, com foco em soluções específicas.
A especialização, permite que o empresário resolva problemas de maneira focada; por exemplo:
Aquisição de ferramentas e tecnologias;
Aquisição de informações técnicas (nacionais e internacionais);
Desenvolvimento de fornecedores para obter as peças que ninguém encontra no mercado;
Parcerias para criar soluções (exemplo: Kit de montagem que nem a própria montadora fornece);
Manter estoque de itens crítico a pronta entrega;
Entre outras tantas facilidades que tornam a empresa uma verdadeira solucionadora de problemas, criando um grande diferencial de valor; mas sempre com foco em uma solução especifica, para qual existe uma demanda, mas as ofertas são limitadas.
E dentro destes nichos de negócios, podemos mencionar os seguintes:
Oficinas especialistas de Marca.
Especialistas em sistemas eletrônicos e calibrações de software.
Especialização em um tipo especifico de veículos (exemplo: Linha Diesel Leve).
Especialistas em sistemas de câmbio e transmissão.
Especialistas em sistemas de climatização.
Especialistas em eletrificação veicular e baterias de alta tensão.
Empresas de customização e performance de veículos.
Especialista em reparo de componentes de alto valor agregado (exemplo: Injetores diesel, bombas de alta pressão, turbos, direções elétricas).
Empresas de restauração de veículos
Especialistas em sistemas de pós-tratamento.
Especialistas em acessórios e estética automotiva.
A mensagem para os empresários que estão pensando em um planejamento de negócios é a seguinte:
Coloque as oportunidades de especialização dentro do seu plano negócios de curto ou médio prazo.






