Veículo não apresentava falhas, mas as velas indicam desgaste e a importância de realizar a substituição no tempo correto
texto Vitor Lima fotos Diego Cesilio
No universo da mecânica automotiva, a manutenção preventiva é o pilar fundamental para garantir que o motor opere com longevidade e desempenho otimizado. Entre os componentes mais críticos para essa harmonia está a vela de ignição, peça responsável por gerar a centelha elétrica que inicia a queima da mistura ar-combustível dentro da câmara de combustão. O funcionamento correto deste item afeta diretamente o torque, o consumo de combustível e o nível de emissões de poluentes do veículo.
As velas são janelas para o interior do motor. Por serem os únicos componentes internos de fácil remoção, seu estado revela condições cruciais da câmara de combustão, como queima de óleo ou infiltração de água.
Tipos de vela de ignição
As velas evoluíram drasticamente. Enquanto modelos antigos utilizavam eletrodos de níquel (convencionais) com cerca de 2 mm de diâmetro, os motores modernos, como o Firefly da Fiat, exigem tecnologia mais avançada.
Velas de Metais Nobres: Utilizam materiais como Platina e Iridium. O Iridium, por ser um metal extremamente duro e com alto ponto de fusão, permite a fabricação de eletrodos muito finos (até 0,6 mm), o que reduz a “tensão requerida” para o salto da centelha.
Diferenciais: Velas de Iridium proporcionam melhorias na partida a frio, maior estabilidade em marcha lenta e acelerações mais lineares. No caso do motor Firefly, a aplicação original é do tipo Duplo Metal Nobre, com ponta de Iridium no eletrodo central e pastilha de Platina no eletrodo lateral.
Riscos da Má Instalação
Um erro comum é subestimar o aperto da vela. O torque correto é vital para a dissipação térmica, se estiver frouxa, a vela superaquece; se estiver excessivo, pode haver deformação da rosca ou trincas no isolador cerâmico. Caso o manuseio seja inadequado, as velas de ignição podem causar risco ao motor e ao componente. Se a vela quebrar, materiais do componente podem cair na câmara de combustão, o que acarreta danos mais severos ao motor.
Fiat Argo 1.3 Firefly
Nesta matéria, acompanhamos o especialista da NGK, Enrico Merizio, na substituição das velas e bobinas de um Fiat Argo 2019. Embora a recomendação de troca para este motor seja de 40.000 km, o veículo em questão já ultrapassava essa marca em 5.000 km.
Muitos motoristas acreditam que velas de Iridium são “eternas”, o que é um mito. Enrico explica que o atraso na troca sobrecarrega todo o sistema. “Quanto mais tempo você demora para trocar a vela, mais você sobrecarrega o sistema de ignição, você vai exigindo mais da bobina de ignição e pode ter uma queima precoce da bobina”.
Desmontagem
1) Para iniciar a desmontagem, é importante salientar que o motor deve estar desligado e, obrigatoriamente, frio para evitar danos às roscas do cabeçote de alumínio.
2) Para ter acesso e melhor espaço de trabalho, é necessário a remoção da caixa do filtro de ar do motor. Utilize a chave 10 mm para soltar os dois parafusos superiores da caixa plástica de ar (2a). Desencaixe as travas laterais, girando levemente o duto para soltá-lo da borboleta (2b), e puxe o conjunto para cima.
3) No motor Firefly 1.3 (4 cilindros), as bobinas são individuais. Use a chave de fenda para empurrar a trava amarela do conector para trás e desconectá-lo, puxando-o para frente. “Se você ficar tentando com o dedo, vai ser mais complicado”, destaca Enrico.
4) Solte o parafuso de fixação de cada bobina com a chave 10 mm. Puxe a bobina girando-a levemente para vencer a vedação de borracha, com cuidado para não atingir o chicote elétrico.
5) Para remover as velas de ignição utilize a chave de 14 mm indicada para velas. Após remover o torque (5a), utilize o tubo de borracha para girar e retirar a vela com segurança (5b).
Obs: As velas neste motor possuem uma leve inclinação. Aplique a força exatamente no sentido do eixo da vela para evitar quebras do isolador cerâmico.
Análise do componente
Ao retirar as velas, que neste veículo ainda eram as originais (modelo NGK ILMAR8C9D), o mecânico deve realizar uma inspeção visual rigorosa.
6) Confira os sinais de desgaste. Mesmo sem falhas aparentes no motor, a vela com 45.000 km já apresentava arredondamento no eletrodo lateral.
7) Verifique se o componente apresenta sinais de contaminação, pois, resíduos pretos (carbonização) indicam mistura rica, encharcamento de óleo pode indicar desgaste de anéis ou retentores e marcas escuras no isolador sugerem o fenômeno de flash over (fuga de corrente).
8) Outro ponto a ser analisado é sobre a identificação das peças, com intuito de certificar que o componente não é falsificado. Este é um problema crescente. Enrico orienta verificar o lote de fabricação gravado em uma das faces do sextavado metálico. Velas originais possuem um brilho característico no isolador (esmalte de proteção), enquanto as falsas são foscas ou ásperas. Além disso, em velas originais com arruela (gaxeta), a peça não sai com facilidade da rosca.
Instalação e montagem
9) Limpe as mãos antes de tocar nas velas novas. Resíduos de graxa no isolador podem causar flash over. Nunca jogue a vela no orifício. Use o tubo de borracha para guiar a vela, respeitando a inclinação do motor, e rosqueie-a manualmente até encostar no cabeçote. Isso garante que a rosca não entre fora de posição.
10) Após, realize o torque de aperto na vela. Para o motor Firefly, que utiliza velas de rosca fina (10 mm de diâmetro), o torque especificado é baixo. Utilize um torquímetro e aplique o torque de 10 Nm a 12 Nm (ou 1,0 a 1,2 kgf.m).
11) Encaixe as bobinas sobre as velas novas, garantindo a vedação contra líquidos. Recoloque o parafuso 10 mm de fixação, conecte o chicote e empurre a trava amarela até ouvir o “clique”.
12) Recoloque a caixa de ar, certificando-se de que o tubo esteja perfeitamente acoplado à borboleta do motor antes de apertar os parafusos de fixação.
Após a montagem, o veículo deve ser ligado para verificar a estabilidade da marcha lenta. A substituição correta das velas, respeitando o código indicado no catálogo, garante que o motor mantenha sua eficiência térmica e proteção do sistema eletrônico, evitando gastos desnecessários com bobinas e sensores de injeção.
















