por Fernando Landulfo



Ao participar do 3º Congresso Brasileiro do Mecânico, tive a oportunidade de notar uma gratificante mudança de atitude, de alguns setores da indústria automotiva (montadoras, fabricantes de sistemas e alguns fabricantes de autopeças e fluidos), em relação ao “Guerreiro das Oficinas”. Sobretudo o independente: uma notável e muito bem-vinda aproximação.

Mudança essa que, por sinal, já estava na hora. Afinal de contas, qualquer profissional mais antigo pode confirmar que, durante muitos anos, num passado não tão remoto, as oficinas independentes, sobretudo as pequenas, eram consideradas, uma casta composta por profissionais: pouco qualificados. Ou seja: meros consumidores de componentes, que não tinham condições de realizar um bom serviço e/ ou instalar corretamente os componentes que forneciam. Basta lembrar dos complicados e demorados processos de garantia que, algumas fábricas, impunham sobre os seus produtos que, por sinal, nem sempre vinham acompanhados de instruções “vitais” para a sua correta instalação (é muito fácil e cômodo criticar o errado se você não ensina o certo).

Mas o tempo passou, as pessoas dentro das empresas foram substituídas ou forçadas a mudar de atitude. Para colaborar com esse processo, a massificação dos computadores pessoais e da Internet permitiu a proliferação da informação técnica e da comunicação a longas distâncias. Aliada a um aumento da oferta de cursos em todos os níveis (presenciais e a distância).

Isso sem falar na economia de massa e facilitação das importações, que permitiu a entrada no país de novos equipamentos e tecnologias e redução dos preços. Atualmente a maioria dos mecânicos são técnicos especializados e muito bem preparados. Alguns são formados em engenharia e pós-graduados (inclusive no exterior). Ou seja: profissionais tão competentes como aqueles que trabalham nas fábricas, capazes de realizar não só diagnósticos profundos, como simulações complexas nos veículos e seus componentes.

Isso sem falar daqueles que, junto com a oficina dirigem e ministram aulas em centros de treinamento próprios.
Da mesma forma, muitas oficinas são equipadas com dispositivos que permitem testes sofisticados. Algumas delas são dotadas de verdadeiros laboratórios. Obviamente, não tão sofisticados como as salas limpas de pressão positiva, utilizadas para a montagem de componentes de precisão como os bicos injetores. Mas o suficiente para a realização de um serviço de qualidade.

Nesse ponto é preciso destacar que a maioria desses dispositivos de teste foram desenvolvidos especialmente para simular, com precisão e segurança, o funcionamento de vários componentes. Todas eles quase sempre com as especificações de funcionamento.

Ou seja: muito se engana quem pensa que o mecânico trabalha na base da adivinhação e/ou não tem condição de realizar um serviço bem feito. E não importa se a empresa é grande ou pequena, central ou de bairro, de capital ou interior. O mecânico é um profissional responsável. Ele só indica um procedimento quando o diagnostico indica. E sempre baseado no resultado dos testes que realizou previamente.



É claro que alguns procedimentos podem envolver algum risco ao componente. Afinal de contas, um simples multímetro, se não utilizado corretamente, pode danificar uma placa de circuitos eletrônicos. O risco aumenta ainda mais nos veículos multiplexados. Ou seja: todo cuidado é pouco. Mas o mecânico é responsável. Sabe que se
danificar algo terá que arcar com os prejuízos. Logo, costuma se informar e “calçar” tecnicamente antes de praticar algo novo.

No entanto, alguns desses procedimentos são controversos e acabam por causar alguma controvérsia. Como por
exemplo o teste e a limpeza dos eletros injetores (injeção indireta). Os fabricantes dos componentes “tem um pé atrás” e não o endossam. Apoiam a sua reticencia nos riscos envolvidos. Por sua vez, os fabricantes de equipamentos garantem a sua eficácia e segurança, desde que utilizados corretamente. A verdade é que o procedimento
tem sido utilizado a muitos anos com grande incidência de sucesso. Raros são os casos relatados de não sucesso ou
danos nos componentes, como afirma o experiente profissional “Mingau” da Mingau Automobilística.

Um outro exemplo, bem mais polêmico, é a substituição da tela filtrante dos já citados eletros injetores. Os fabricantes desaprovam totalmente. E em verdade, com certa razão. Afinal de contas, ao remover o dispositivo de segurança, abre-se passagem para a entrada de impurezas. E uma mínima contaminação (na casa dos milésimos de milímetro) pode impedir o fechamento do injetor. Resultado: um possível calço hidráulico no motor.

No entanto, existem muitos casos relatados onde a tela filtrante se encontrava totalmente danificada e a sua substituição solucionou o problema do veículo. Procedimento de risco? Com absoluta certeza. Se for feita a opção pelo mesmo todo o cuidado é pouco, principalmente com a limpeza? Sem sombra de dúvidas. As montadoras e os sistemistas vendem essas telas no mercado de reposição? Claro que não. Mas elas estão sim presentes no mercado. Aos olhos de um especialista em desenvolvimento, que não vive a realidade das oficinas, tais procedimentos podem parecer bizarros ou absurdos. Mas essa é a realidade do mercado. Ou seja: pouca gente pode ou está disposta a pagar por injetores novos, por conta do aparecimento de sujeira. O retrato da população de um país em desenvolvimento.

Quem sabe um dia, com essa contínua aproximação, possa haver um “acordo técnico” entre mecânicos e fabricantes sobre a manutenção desse tipo de componente. Mas por enquanto o importante é afirmar com veemência: Na oficina se faz serviço bem feito sim senhor!