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osciloscópio

De artigo de luxo a quase esquecido, o osciloscópio está de volta às oficinas com força total

Os profissionais mais antigos com certeza vão confirmar: a ostentação do mecânico, nos anos 70, 80 e 90, era ter um analisador de motores do tipo “armário” na oficina. E quanto maior fosse, melhor. Um caríssimo cartão de visitas que, muitas vezes, tinha o objetivo de passar a seguinte mensagem: este estabelecimento é um local de sucesso que pode investir nos mais avançados recursos para receber os veículos dos seus clientes. Mas é preciso deixar claro que o equipamento não era apenas um enfeite caro.

Longe disso. Quando o seu operador era devidamente treinado, o analisador de motores tornava os diagnósticos muito mais rápidos e precisos nos motores de ignição por centelha.

Além disso, permitia alguns “ajustes finos” nos sistemas de alimentação e ignição que realmente faziam diferença no funcionamento. Mas é claro que estamos falando de uma época em que ainda imperavam o carburador e a ignição por distribuidor. Pois bem, o mais chamativo dos recursos que integravam esses analisadores de motores era o osciloscópio.

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MAS O QUE É UM OSCILOSCÓPIO?

Pois bem, trata-se de um dispositivo que permite visualizar, na forma de uma figura, a variação de tensão elétrica em uma escala de tempo. Segundo a Wikipedia (2021), “um instrumento de medida de sinais elétricos/eletrônicos que apresenta gráficos a duas dimensões de um ou mais sinais elétricos, conforme a quantidade de canais de entrada.

O eixo vertical (y) do ecrã (monitor) representa a intensidade do sinal (tensão) e o eixo horizontal (x) representa o tempo, tornando o instrumento útil para mostrar sinais periódicos.

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O monitor é constituído por um ‘ponto’ que periodicamente ‘varre’ a tela da esquerda para a direita”. Na época em questão, era totalmente analógico, monocromático e quase que exclusivamente dedicado à leitura do sistema de ignição e do alternador.

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Suas imagens do sistema de ignição em três ou quatro configurações diferentes, tanto do circuito primário quanto do secundário, permitiam ao técnico treinado, a visualização de defeitos como: cabos de velas e rotores de distribuidor com resistência excessiva, velas curto-circuitadas, bobinas de ignição defeituosas, eixos de distribuidores excêntricos etc.

Assim como, quando complementados por outros testes detectar alguns problemas de vedação em câmaras de combustão. Também era possível ao técnico experiente verificar a presença de falha em diodos retificadores dos alternadores.

Alguns equipamentos dispunham de uma ponta de prova que permitia a visualização das ondas geradas por sensores de rotação do tipo indutivo a hall. É claro que, como não se tratava de um instrumento mais de visualização, as suas medições não eram muito precisas.

No entanto, o bastante para ajudar os “Guerreiros das Oficinas” da época a solucionar muitos problemas. No entanto, as suas grandes desvantagens, além do preço elevado, eram possuir um único canal de leitura (inviabilizava uma comparação entre sinais de diferentes origens); a indisponibilidade dos recursos dos sistemas digitais (congelamento, zoom, impressão etc.) que pouco tempo depois foram implementados; e a impossibilidade de leitura de ignições estáticas – os adaptadores específicos foram introduzidos depois de algum tempo como item opcional.

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AUTODIAGNÓSTICO NÃO RESOLVE TUDO

Nos anos seguintes, a disseminação da injeção eletrônica fez com que o mecânico tivesse que aprender eletroeletrônica e utilizar novas ferramentas. A mais famosa delas é o scanner. Um dispositivo à primeira vista “milagroso” que tinha potencial para solucionar todos os problemas de injeção eletrônica (por sinal, nessa ocasião, era comum atribuir a esse sistema todos os sintomas de mau funcionamento de um motor).

Associado a uma caneta de polaridade e um multímetro automotivo, o scanner, durante um bom tempo ajudou o “Guerreiro das Oficinas” a resolver os problemas de funcionamento mais corriqueiros dos motores.

As dores de cabeça ficavam por conta dos sistemas de injeção que não tinham comunicação com scanner (analógicos) ou cujo protocolo de comunicação ainda não havia sido disponibilizado pelos fabricantes desses equipamentos (muito comum nos veículos importados). Nesse caso, além da experiência e do conhecimento do mecânico, costumava entrar em cena o osciloscópio de eletrônica.

Um instrumento de precisão que, com todas as vantagens disponibilizadas pela eletrônica digital e múltiplos canais, costumava ser uma “mão na roda” para quem pudesse comprá-lo e soubesse como utilizá-lo.

Com o passar do tempo e o aumento das exigências sobre os veículos, principalmente no que diz respeito às emissões de poluentes, conforto e segurança, era de se esperar que eles se tornassem cada vez mais complexos.

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Sistemas de tração híbrida e elétrica dividem as ruas com a combustão interna, agora gerenciada por sofisticadíssimos controladores, conectados em rede com outros sistemas do veículo. Durante o seu funcionamento uma verdadeira infinidade de sinais pulsados trafega por praticamente todos os sistemas, nas mais variadas sequências, frequências e amplitudes.

Até mesmo o funcionamento do alternador dos veículos mais modernos é gerenciado por um controlador eletrônico por meio de um sinal do tipo PWM (modulação por largura de pulso). É certo que as rotinas de autodiagnóstico que os scanners atuais acessam são bastante sofisticadas e cheias de detalhes.

No entanto, ainda não conseguem prever 100% de todos os possíveis defeitos que uma rede complexa como essa pode apresentar. Além dos mais os motores de combustão continuam a ter sistemas de ignição sujeitos aos mesmos problemas que os seus predecessores.

Problemas que podem ter origem desde uma simples oxidação em um conector, passando por um erro de instalação de um acessório não original, até uma falha em um componente.

Defeitos que, muitas vezes, geram o sintoma, mas não um código de falha e/ou só ocorrem com o veículo em movimento sob determinadas condições e cujo diagnóstico preciso exige um exame comparativo detalhado de 2 ou mais sinais diferentes simultaneamente, coletados durante o teste, mas cuja análise ocorrerá apenas posteriormente.

E é nesse ponto que entra novamente em cena aquele já conhecido instrumento especializado em ler sinais que variam com o tempo. Porém, agora, digital, com display em cores, compacto, dotado de vários canais e com preço bastante acessível. Isso sem falar na grande disponibilidade de treinamentos de utilização e interpretação de sinais.

É provável que muitos digam que esse tipo de equipamento ainda é um luxo. Que o serviço pode perfeitamente ser realizado sem ele. Isso pode até ser mesmo possível. Mas, a que preço? Tendo em vista a competitividade dos dias atuais, cada minuto ganho é um passo adiante dos competidores. Quem está disposto a ficar para trás?

Artigo por Fernando Landulfo
Fotos Arquivo O Mecânico