Equipamentos: Fizemos um apanhado do ferramental utilizado no dia a dia do mecânico, abordando a maneira adequada de manuseio e armazenamento, o que assegura um serviço de excelência e preserva o investimento da oficina
Quem nunca perdeu uma chave 10 na oficina? Aliás, isso virou até meme nas redes sociais. Ferramentas sempre fizeram parte do cotidiano da manutenção automotiva, acompanham o mecânico desde os primórdios da profissão e muitas vezes se tornaram praticamente uma extensão das mãos do profissional dentro da oficina. Mas se no passado um conjunto básico de chaves resolvia boa parte dos reparos, a evolução tecnológica dos veículos mudou completamente esse cenário.
Eletrônica embarcada, sistemas de assistência à condução, direção elétrica, motores cada vez mais compactos e a chegada dos veículos híbridos e elétricos fizeram com que o ferramental automotivo acompanhasse essa transformação. Hoje, utilizar a ferramenta correta deixou de ser apenas uma recomendação e passou a ser requisito para garantir a qualidade do serviço prestado, a segurança do veículo, a integridade dos seus ocupantes e a rentabilidade da oficina.
O instrutor do SENAI e proprietário da Oficina Louricar, Maurício Marcelino, afirma que o primeiro passo é abandonar uma ideia bastante comum dentro do setor: “quando a gente fala de ferramenta, muita gente pensa que é tudo igual, mas não é. Existe ferramenta, existe instrumento e existe equipamento. Também é importante saber as diferenças de cada um”
Ferramenta não é tudo a mesma coisa
Segundo Marcelino, a primeira distinção importante dentro da oficina é entender exatamente o que cada item representa. As ferramentas manuais são aquelas que dependem diretamente da força aplicada pelo mecânico. Chaves, catracas, soquetes e alicates entram nessa categoria.
“São as chamadas ferramentas convencionais do dia a dia. Aquelas em que a força da mão do mecânico é responsável pelo trabalho”, diz o professor.
Já os instrumentos possuem uma função diferente: eles fornecem medidas e informações ao profissional. “O paquímetro oferece medida. O micrômetro oferece medida. A própria régua oferece medida. Tudo aquilo que fornece uma medição para o mecânico passa a ser considerado um instrumento.”
É justamente nessa categoria que entra um dos itens mais importantes da oficina moderna: o torquímetro. “Muita gente acha que o torquímetro é apenas mais uma ferramenta, mas ele é um instrumento porque trabalha fornecendo uma medida durante o aperto.”
Os equipamentos formam o terceiro grupo. “Nós temos o macaco jacaré utilizando força hidráulica, temos o elevador funcionando com energia elétrica, temos equipamentos pneumáticos, scanners automotivos. Tudo aquilo que utiliza outra fonte de energia deixa de ser ferramenta e passa a ser equipamento.”
E se eu estou começando uma oficina, como investir?
Uma das perguntas mais frequentes feitas ao professor é quais ferramentas são indispensáveis para abrir uma oficina. A resposta, segundo ele, quase sempre decepciona quem espera uma lista pronta: “vai depender muito da linha que o mecânico pretende seguir”, analisa.
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Uma oficina especializada em suspensão e freios possui necessidades completamente diferentes de uma oficina dedicada exclusivamente à injeção eletrônica ou à transmissão automática.
Mesmo dentro dos sistemas de freio, por exemplo, a utilização de ferramentas específicas tornou-se indispensável. “Muita gente fala que qualquer chave solta qualquer parafuso. Mas não é verdade”.
Ele explica que o parafuso sextavado convencional possui seis faces e que determinadas chaves atuam apenas em duas delas. E continua: “quando você utiliza uma chave inadequada, aumenta muito a chance de espanar o parafuso e até a própria ferramenta”.
Por isso, sempre que possível, a recomendação é utilizar a parte estriada da chave combinada, já que a parte estriada abraça melhor o parafuso e distribui melhor a força aplicada.
Nos sistemas hidráulicos de freio, inclusive, existem ferramentas específicas para as conexões das tubulações, tudo para evitar danos à porca e retrabalho.
O investimento em ferramental é constante
A evolução dos veículos trouxe também uma mudança silenciosa dentro das oficinas: a mudança dos próprios fixadores utilizados pela indústria. O professor afirma: “Eu sou de uma geração que usou muito chave Allen, hoje, entretanto, a realidade é outra. Você tem motores mais modernos, que praticamente usam a chave Torx.”
Segundo Marcelino, o formato Torx oferece maior área de contato e reduz significativamente o risco de danificar a cabeça do parafuso durante o aperto ou desmontagem. “O mecânico precisa investir em ferramental o tempo inteiro. Se ele não acompanhar a evolução dos carros, ele para no mercado”, completa.
O carrinho de ferramentas virou o ponto de partida
Para quem está entrando na profissão ou montando a primeira oficina, os carrinhos de ferramentas aparecem como uma das melhores soluções. Hoje existem carrinhos para todos os bolsos, que além de oferecerem praticamente todas as ferramentas básicas necessárias para o início das atividades, eles facilitam a organização e o controle do ferramental.
Marcelino conta, entretanto, que na Louricar a realidade exigiu uma adaptação, já que a oficina é estreita. “Quando colocávamos dois carros lado a lado, o carrinho simplesmente não passava”, ele diz.
A solução encontrada foi a instalação de painéis organizadores próximos aos veículos. Por isso foram adotados quadros de ferramentas na parede, onde cada ferramenta possui seu local e cada espaço é demarcado.
Segundo ele, o sistema permite identificar rapidamente qualquer ausência ao final do expediente. “Chegou no final do dia, basta bater o olho e você já sabe se está faltando alguma coisa”, comenta.
O mistério da chave 10 continua vivo
Existe um assunto que praticamente une mecânicos do mundo inteiro: “Onde está a chave 10?” Como dissemos, existe até meme sobre o desaparecimento da famosa chave combinada na oficina. Mas, segundo o professor, na maioria das vezes a ferramenta não foi perdida nem levada embora.
“O que acontece é que ela caiu durante o serviço e ficou esquecida em algum lugar do carro.” Por isso, ele sugere uma regra dentro da oficina: caiu a ferramenta, pega na hora. Isso evita que deixe pra depois e acabe esquecendo o objeto.
Ferramenta também precisa de manutenção
Muitos profissionais dedicam atenção total ao veículo do cliente e esquecem de cuidar do próprio ferramental, mas isso é um erro, já que as ferramentas precisam ser limpas e guardadas corretamente, um investimento que precisa ser preservado em ótimas condições.
Embora boa parte delas seja produzida em aço com proteção contra corrosão, resíduos de óleo, graxa e produtos químicos podem comprometer sua durabilidade. “No final do dia, pelo menos uma limpeza básica precisa ser feita”, aconselha o professor.
Periodicamente, a oficina também realiza limpezas mais profundas utilizando solventes. A ideia é preservar a ferramenta e aumentar sua vida útil.
Instrumentos de precisão exigem cuidados especiais
Em se tratando de instrumentos de medição, os cuidados aumentam ainda mais. “O torquímetro não foi feito para soltar parafuso”, alerta Marcelino, “utilizar o instrumento para afrouxar fixadores pode comprometer sua calibração e reduzir sua vida útil. Ele foi desenvolvido exclusivamente para aplicar o torque correto.”
Por se tratar de um equipamento de precisão, o armazenamento também exige atenção: usou, guardou no estojo. Isso vale também para paquímetros e micrômetros. Segundo professor, não se pode jogar um paquímetro dentro da caixa de ferramentas e deixar solto sem proteção. Passar um óleo apropriado no instrumento ajuda na conservação.
Sempre aferidos e prontos para usar
Outro tema pouco discutido dentro das oficinas é a calibração periódica dos instrumentos. “Quem garante que aqueles 40 Nm que aparecem no torquímetro são realmente 40 Nm?”, indaga. A resposta é simples: apenas a aferição periódica.
Segundo Marcelino, empresas homologadas realizam esse serviço e fornecem certificados de rastreabilidade e controle. Se o instrumento estiver descalibrado, você pode apertar menos do que deveria ou muito mais do que deveria. Nos dois casos, o resultado pode ser grave.
Toda oficina ainda tem um martelo escondido
Apesar da evolução tecnológica, Marcelino admite uma realidade praticamente universal: “Se eu falar que na minha oficina não existe martelo ou marreta, eu estaria mentindo”, diz.
O problema, segundo ele, não é possuir o martelo, mas saber exatamente onde utilizá-lo. Hoje existem extratores específicos para pivôs, terminais e diversos componentes. A utilização incorreta de martelos e ferramentas de impacto semelhantes pode gerar prejuízos elevados.
O prejuízo de R$ 9 mil
Um dos exemplos citados pelo professor envolve as direções com assistência elétrica. “Hoje muitos veículos utilizam sensores na coluna de direção, ao utilizar um martelo para remover determinados componentes da suspensão ou direção, existe risco de danificar esses sensores. Você entra para fazer um serviço de R$ 200 e sai com uma conta de R$ 9 mil”, diz.
Segundo ele, muitos profissionais ainda reproduzem procedimentos que funcionavam em veículos antigos. O problema é que os componentes atuais são muito mais sensíveis.
Compartilhar ferramentas pode ser uma solução
Ferramentas especiais costumam representar investimentos elevados e nem sempre possuem utilização frequente. Por isso, Marcelino defende a criação de grupos entre oficinas, relembrando os primeiros anos da injeção eletrônica.
“Na época, juntamos três oficinas para comprar um scanner e dividimos as parcelas igualmente entre os participantes. Quando terminava de pagar um equipamento, comprávamos outro.”
Segundo ele, a estratégia funcionou e permitiu que diversas oficinas tivessem acesso à tecnologia sem comprometer o fluxo de caixa.
Os eletrificados e a mudança das regras novamente
Se a eletrônica embarcada transformou a oficina nos últimos anos, os veículos híbridos e elétricos prometem provocar uma mudança ainda maior. Não se pode simplesmente pegar uma chave comum para trabalhar com alta tensão, as ferramentas utilizadas nesses veículos possuem isolamento específico para tensões elevadas.
“Estamos falando de ferramentas isoladas para até mil volts”, diz. Além disso, luvas e equipamentos de proteção precisam passar por inspeções e testes periódicos.
Marcelino afirma que o treinamento deixou de ser diferencial e passou a ser obrigação. “Antes de começar qualquer serviço, a luva precisa ser testada, o carro eletrificado já está na oficina e quem quiser trabalhar com ele precisa estudar”.
Parafusadeiras são “uma mão na roda”
As parafusadeiras elétricas assumiram um espaço cada vez maior dentro das oficinas por conta da praticidade, já que a pneumática exige compressor, mangueira e infraestrutura.
Já as elétricas oferecem maior mobilidade e facilidade de uso, mesmo assim existe uma regra importante: “a parafusadeira facilita a desmontagem e o pré-aperto, mas o aperto final continua sendo responsabilidade do mecânico”, diz.
Scanner não substitui conhecimento
Quando os primeiros scanners chegaram ao mercado, muitos acreditaram que eles resolveriam todos os diagnósticos automaticamente. Diziam que bastava conectar o equipamento e ele diria exatamente qual peça trocar.
Mas a prática mostrou outra realidade: o scanner fornece o caminho, mas o diagnóstico definitivo continua dependendo do profissional. “Pode ser o sensor, pode ser o fio, pode ser o conector, pode ser alimentação elétrica, é justamente nesse momento que entra outro equipamento fundamental, o multímetro”, comenta Marcelino.
Segundo Marcelino, em alguns casos o scanner e multímetro trabalham juntos, ou seja, o scanner aponta o caminho e o multímetro confirma o diagnóstico. Essa validação evita substituições desnecessárias e reduz custos para o cliente, “imagine trocar uma peça de R$ 10 mil e descobrir depois que não era esse o problema”.
Torquímetro: entre a teoria e a prática da oficina
O torquímetro é uma das ferramentas mais ensinadas nos cursos de formação e, ao mesmo tempo, nem sempre é utilizada na rotina de muitas oficinas independentes.
Porém, existem situações em que o uso do torquímetro deixa de ser recomendação e passa a ser praticamente obrigatório. “Quando você fala de motor, transmissão automática e componentes mais específicos, praticamente é obrigatório utilizar o torque especificado pelo fabricante”, comenta.
Segundo Marcelino, os motores atuais trabalham com parafusos menores, materiais mais leves e tolerâncias cada vez mais reduzidas, tornando o controle do aperto fundamental para evitar deformações, vazamentos e falhas prematuras.
Para o professor, quando o assunto é torque, a discussão vai muito além da técnica e entra diretamente no campo da segurança. Além das rodas, componentes como bandejas, pivôs e elementos da suspensão dependem diretamente da correta aplicação do torque especificado.
Ele lembra de procedimento para minimizar esse risco: baixou o carro do elevador, a primeira coisa é conferir o aperto das rodas. Mesmo utilizando parafusadeiras durante a desmontagem e no pré-aperto, o fechamento final é realizado manualmente.
“Nós nunca fazemos o aperto final da roda com a parafusadeira. O aperto final é sempre na chave de roda, já que o excesso de torque também representa um problema frequente nas oficinas”, diz.
A principal ferramenta continua sendo o conhecimento
Entre scanners, extratores, torquímetros, multímetros e equipamentos para alta tensão, Marcelino acredita que existe uma ferramenta que continua acima de todas as outras: o conhecimento do mecânico.
Segundo ele, os carros mudaram, os procedimentos mudaram e as ferramentas mudaram; e o profissional que não acompanhar essa evolução vai encontrar dificuldades para permanecer no mercado. “O mecânico precisa investir em ferramental o tempo inteiro. Ferramenta deixou de ser custo e passou a ser investimento”, finaliza.





















